GRUPO DE MULHERES | Ocupação Eliana Silva

 

 

OCUPAÇÃO ELIANA SILVA

GRUPO DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS E FEMINISMO

RELATO DE ENCONTRO

CENÁRIO

Ana Paula, Gabriel, Bella, Zaica e eu, partíamos de Bh em direção a Barreto, periferia da cidade, discutindo o novo sistema de transporte público, que por ser bastante caro, escasso e centralizador, reforça a lógica da exclusão. Hoje, para chegar em determinados pontos da cidade, principalmente os periféricos, é necessário pegar uma linha fixa centralizada e de lá pegar outro ônibus. As linhas que entram nos bairros, passando por ruas que cruzam os arredores foram cortadas, o que obriga a maioria dos cidadãos a pegar dois ou mais ônibus, no valores que variam de 3,50 à 5,00 por trecho (sem integração).

Chegamos a ocupação Eliana Silva para realiazar o grupo de mulheres sobre Saberes Tradicionais e Feminismo, com o sol ardendo no topo da cabeça. Andando pelas ruas de terra batida, vimos as casas de alvenaria sem reboque organizadas por lotes. Passamos por uma pequena biblioteca comunitária e pudemos perceber uma horta no quintal de uma casa. Logo quando chegamos no espaço não pudemos deixar de notar aquele quintal, verde e vívido, e fomos tomar uma água e prosear na vizinha.

Dona Cleude e Marlene, sua filha, com o pequeno Artur, eram vizinhas de frente ao espaço onde faríamos nosso encontro. Elas vieram de uma aldeia pataxó e trouxeram consigo os saberes do plantar, assim como, cânticos e outras tradições culturais de seu povo. Saíram de sua aldeia devido a ameaça frequente dos fazendeiros em busca do seu território e o iminente perigo de assassinato. Dona Cleude e Marlene disseram participar do processo do grupo de mulheres, que faríamos.

Aos poucos, começaram transitar pelas vielas, mulheres e crianças dispostas construir um projeto conosco, no espaço disponibilizado pela comunidade, de uma futura creche.

O tema da discussão foi resgate de saberes tradicionais de cuidado( práticas integrativas) para o fortalecimento daquela comunidade, feminismo, também discutiríamos o feminino na cura, passando historicamente pelo período de caça as bruxas, discutiríamos o esteriótipo da bruxa, assim como, as implicações da participação da mulheres nas relações de poder econômico, social, político e religioso no cenário do cuidado até os dias de hoje.

Aos mesmo tempo em que no espaço interno da casa rolava essa calorosa conversa, no espaço externo, as criança construíam um lindo mural junto com Gabriel, numa interativa brincadeira de criação e transformação daquele espaço.

PLANEJAMENTO

No caminho, pensava na complexidade que seria discutir esse tema de modo a minimiza a resistência, em um cenário de perspectivas religiosas diversas e bastante pragmáticas, no qual fiéis são peças importantes para a reprodução de um cenário desigual.

Mudei a dinâmica. Primeiro iria no caminho de aproximar o grupo de mulheres, ao saber tradicioanis que elas já possuem, sensibilizá-las para a valorização desta memória e depois fazer a ponte com as perseguições que sofrem mulheres, até os dias de hoje, com conhecimentos parecidos. Ao final amarrar o enorme poder que esses saberes possuem justificando toda a histórica perseguição político-social que se desenrola até os dias de hoje na área da saúde no Brasil, passando pelas relações de gênero.

AQUECIMENTO

Abrimos o encontro com a fala de uma companheira sobre a violência doméstica que sofria, grávida de 9 meses, dividia sua estória com o grupo o que desencadearia, logo no início, nossa reflexão coletiva sobre questões de gênero que todas vivíamos. O grupo de mulheres traça uma ponte, nessa discussão, entre como educar as crianças, para que se quebre a corrente do machismo reproduzida de geração em geração.

Vamos lá, tirinhas com perguntas foram dobradas e embaralhadas.

Cada uma sortearia uma pergunta e poderia responder com a ajuda das companheiras.

Estórias de infância, lembranças do tempero da avó, cantigas de roda, cultivo de ervas, criação de animais, medicinas naturais, doenças, travessuras de infância, festas tradicionais, preencheram o centro de nossa roda.

“Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo, sem ser semeado…” cantamos juntas.

A DISCUSSÃO

Aquecido pelo presença de nossa estória, compartilhada e acolhida por todas, corações aconchegados podíamos com mais intimidade e confiança discutir como e porque, a partir desses saberes, 8 milhões de mulheres foram parar na fogueira.

Nosso processo, percorreu os temas abaixo:

– A bruxa em nós, não somente com a verruga no nariz, mas também aquela que detém sabedoria sobre cuidados, conhece sobre a natureza, alquimias, domina técnicas de agroecologia, simbologias, que intervém em sua comunidade, fortalece a rede de garantia de direitos, produz e ensina conhecimentos a partir da observação e conexão com a natureza e participa da rede simbólica, política e social, assim como organiza a defesas de camponeses por seu território, compreendido com sagrado.

– A identificação do grupo com figuras como Joana D’ arque, logo remeteu a associação de que qualquer uma naquela roda, assim como suas mães e avós, teriam sido julgadas pela santa inquisição, alguns séculos antes nossa reunião, na creche do Eliana Silva.

– A ascensão da medicina científico-masculina, o enfraquecimento da igreja católica e o enorme poder de intervenção das mulheres e saberes tradicionais para sobrevivência, resistência e organização política daquela época, ampliamos o cenário de perseguições.

– A realidade da mulher e da saúde atual, passando pelo alto consumo das mulheres à indústria farmacêutica e cosmetológica, o apelo da mídia aos padrões de beleza e consumo, hegemonia dos métodos científicos- físicos, modelo hospitalocêntrico.

– As categorias profissionais de saúde, majoritariamente compostas por mulheres em relação a cultura masculina/ machista na medicina. Assim, as disputas no campo político, como o Ato Médico, situações do parto natural no Brasil, as parteiras e a recente perseguição e difamação médica às práticas integrativas tradicionais (indígenas). Ao compararmos a relação da medicina hoje, ainda centralizada nos centros urbanos, em sua hegemonia de saberes frentes as demais categorias profissionais e saberes de saúde da população, pensamos que uma retomada aos saberes da população é fundamental.

REMATE

A compreensão da saúde, do cuidado de modo integral e compartilhada, chega ao grupo com toda a força e ideias borbulham pela sala pequena e aconchegante que nos recebe. Maneiras de resistência à caça as bruxas atual, sugiram com muita força.

Em um grupo intergeracional, crianças, idosas, adolescentes e mulheres de todas as idades, evangélicas, católicas, umbandistas e índias compartilhavam suas lembranças e saberes numa troca riquíssima e inesquecível.

Dias depois, recebi a notícia que o grupo passou a se reunir com frequência após a finalização do nosso processo. A partir de então, decidiu construir uma horta comunitária na qual teriam o intuito de plantar ervas medicinais e alimentos orgânicos para cuidados de saúde. Convidaram nos e a dona Cleude para orientar técnicas de plantio.

Como já havíamos ido embora da cidade, o Etinerâncias hoje acompanha o processo por via online.

O processo segue assim, e as seguintes etapas são:

– Investigar quais necessidades básicas de saúde e cuidados do local;

-Reestruturar e mapear a rede de griôs e saberes tradicionais da região;

– Fortalecer o protagonismo social do grupo de mulheres para as intervenções comunitárias.

SEGUIMOS JUNT@S!!!

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