HORTA DO JOÃO
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HORTA DO JOÃO

Acordamos pela manhã e avistamos uma moto parada em frente à casinha que estávamos, no alto da montanha. Há dias não víamos nenhum ser humano passando pela região.

-Bom dia, disse Gabriel.

Fácil assim começou a prosa.

O homem colhia pinhão em seu chapéu. Era João.

Contou que as crianças gostavam muito de pinhão. De pinhão cozido, de preferência.

– Mas assim gasta muito gás, falou João.

Já ele, gostava do pinhão como era preparado antigamente, direto na brasa. Enquanto o papo rolava, Gabriel o ajudava a reunir a semente. João ficou surpreso com a cooperação inusitada. Eu, acompanhando a cena, percebi que os laços se estreitaram naquele momento. A prosa rolou por um longo tempo e após um saco cheio de pinhão e os rostos cheios de sorriso os dois se despediram.

João voltou de tarde na casinha, trazendo vários sacos cheios de abacate, couve, azedinho com cebolinha e chuchu.

– Peguei lá da horta de casa, procêis! Vocês comem até chuchu mesmo???

Nossa atitude foi um sorriso tão inusitado quando o de João pela manhã.

– Ôceis num comem carne não né? Trouxe pra vocês ficarem alimentados então!

Chegou acompanhado de quatro cachorros, que entraram com seus narizes atentos correndo pelo quintal  e depois em casa pra nos conhecer. Na sequencia, chegou o menino, que também chamava João distribuindo sorrisos.

De noite preparando a refeição com tanta fartura, provamos a salada de azedinho, colhido do pé pelo novo amigo enquanto lembrávamos que quando crianças comíamos trevo de três folhas!

Também costumávamos chupar o melzinho tirado do hybisco vermelho, que dava em qualquer jardim de vó.

Lembramos de passar tarde inteiras da infância tentando desempenhar a missão de tocar todos aqueles matinhos que se fecham com o contato e minutos depois voltam a abrir.

Como as crianças descobrem essas coisas da natureza?

Não bastasse a surpresa, na manhã seguinte, nos esperava na varanda mais alguns sacos de verduras, legumes e frutas fresquinhas, que João deixou cedo e que participaram das nossas refeições por mais algumas semanas, embalando lembranças naturais colhidas do pé!

 

15 de abril de 2015,

São Francisco Xavier.